Teresina - PI

Advogado denuncia que foi preso por engano e agredido por policiais do Greco

De acordo com o advogado, ele foi preso suspeito de ter participado do sequestro do gerente do banco Itaú e de sua família na última terça-feira (07).

Fábio Wellington
Teresina
Wanessa Gommes
Teresina
10/07/2020 21h21 - atualizado 22h02

O advogado e servidor público federal de iniciais K.M.L. denunciou ao GP1, na noite desta sexta-feira (10), que foi preso por engano e agredido durante uma abordagem truculenta de uma equipe do GRECO (Grupo de Repressão ao Crime Organizado). O caso, segundo ele, aconteceu na última quarta-feira (08).

De acordo com o advogado, ele foi preso suspeito de ter participado do sequestro do gerente do banco Itaú e de sua família na última terça-feira (07).

Abordagem

O advogado relatou que foi abordado na Avenida Joaquim Nelson, zona sudeste de Teresina, quando aguardava a esposa e o filho de 6 anos. “Eu tinha ido fazer compras no Supermercado Mateus e estava voltando pela Avenida Joaquim Nelson para pegar a minha esposa que tinha ficado na casa do irmão dela junto com meu filho. Ao chegar, liguei para ela descer e fui fazer o retorno na outra esquina. No momento que eu manobrava o carro, uma Amarok prata me trancou atrás”, contou.

  • Foto: Marcelo Cardoso/GP1GRECOGRECO

“Eu achei entranho e segui mais um pouco pensando que ele queria entrar na rua, nisso um Onix veio e me trancou pela frente. Nesse momento saiu uma pessoa apontando uma arma para mim, pelo lado do passageiro e outros dois policiais apareceram pelo lado do motorista. Não dava para identificar que eram policiais, então achei que era um assalto”, continuou.

O advogado então disse que os policiais mandaram ele descer do carro e colocar as mãos para cima. “Eu obedeci. Depois disso eles mandaram eu deitar de bruços no chão quente, porque ainda era cedo, foi por volta das 16h30min. Eu deitei no chão, ai eles me perguntaram onde estava o dinheiro. Eu respondi que não tinha nada, e que era cidadão, servidor público federal, e advogado, além de falar que eles estariam me confundido”, explicou.

“Quando eu falei que era advogado, um deles que se apresentou como delegado disse: 'algema ele, algema ele'. Eu respondi dizendo que não precisava me algemar, porque em nenhum momento eu ofereci resistência. Mesmo assim, fui algemado de uma forma que meus pulsos ficaram lesionados, e eu ainda estava deitado no chão quente. Eles me revistaram e até viram minha carteira da OAB”, detalhou o denunciante.

Agressão física

No relato, o advogado destacou que chegou a ser agredido fisicamente. “Eu fiquei com medo do meu filho de seis anos ver a cena, então pedi para sair do local. Foi nesse momento que eles me pediram para levantar, mas eu não conseguia, um deles então me deu um chute nas nádegas, e me puxou, momento em que eu lesionei o joelho. Eu nem conseguia levantar, nunca tinha passado por isso”, lamentou.

Vítima de preconceito e de humilhação

O advogado disse ainda acreditar que a abordagem aconteceu desta forma por questão racial. “Fui colocado na Amarok da polícia e levado para um posto na região da Ladeira do Uruguai. Logo depois acho que eles perceberam que tinha me prendido por engano. Os criminosos que tinham praticado o sequestro estavam em um veículo parecido com o meu, um veículo Toro, de cor branca. Mas a placa era diferente e meu carro também estava com uma lanterna quebrada. Só porque eu sou negro e estava em uma Toro branca, eles me abordaram daquela forma. O tempo todo algemado. Eu tinha como provar que estava vindo do supermercado, o carro estava cheio de compras com notas fiscais”, denunciou.

“Chegando nesse posto da Ladeira do Uruguai, eles falaram que iriam devolver meu carro. Ai eu perguntei porque eles tinham me humilhado no meio das pessoas. Nesse momento, o policial me respondeu que eu tinha era sorte de ainda estar falando. 'Você fez foi nascer de novo', disse um deles. Nessa hora me senti ameaçado”, afirmou o advogado.

No GRECO

O advogado disse ainda o que aconteceu quando chegou à sede do GRECO. “Do posto me levaram para o GRECO, lá, na hora de descer, me puxaram pelo colarinho da minha camisa. Outro delegado foi me interrogar e me perguntou por um grupo de criminosos. Do que eu nem tinha conhecimento. Nesse momento, um policial que estava do meu lado disse ao delegado que eu falava que era advogado. E o delegado respondeu que eu poderia ser advogado.'Seja quem for, vai para o pau do mesmo jeito'. Nessa hora tiraram ele do local, porque eu acho que ele poderia até me bater”, salientou.

“Me levaram para outra sala, ainda algemado e sendo chamado de vagabundo. Tiraram foto minha. Pediram a placa do meu carro, eu disse, e eles falaram 'é não, é ele não'. Minha placa era diferente, meu carro tinha detalhes diferentes como a lanterna quebrada. Não tinha indício nenhum que era eu. Então, volto a reforçar a questão racial. Um negro dirigindo uma Fiat Toro, ai eles me abordaram”, realçou.

“Após isso, o delegado da primeira abordagem chegou e disse que eu era um cidadão. Então, eu questionei ele, se eu era um cidadão porque fui humilhado? Ele respondeu que estava no meio de um ocorrido lamentável, uma operação, que a polícia não tem estrutura, estando com um déficit de agentes, e que lamentava a situação. Mas, mesmo com essa falta de agentes eles ficaram ainda comigo cerca de uma hora, perdendo tempo, podendo terem me liberado logo”, contestou.

Depois de tudo, o advogado disse que mesmo fazendo de tudo para o filho não presenciar o fato, ele escutou tudo. “Peguei meu carro e fui pegar minha esposa, porque ela estava nervosa. Eu pensava que meu filho não tinha visto, mas ele escutou tudo. E quando eu cheguei para pegar ele, meus familiares tinham levado ele para um passeio de carro porque ele estava chorando por conta do ocorrido. Vou até levar ele para o psicólogo, porque ele está impressionado”.

Denúncia na Corregedoria

O advogado disse ainda que registrou um Boletim de Ocorrência e que vai denunciar o caso à corregedoria. “Cheguei em casa, liguei para a equipe da Comissão de Defesa das Prerrogativas dos Advogados da OAB, já que as minhas foram violadas, além do abuso de autoridade. Fui com eles até a Central de Flagrantes fazer o Boletim de Ocorrência, solicitei o exame de corpo de delito, que comprovou as lesões nos punhos e no joelho direito. Com isso em mãos a OAB vai protocolar a denúncia na corregedoria”, garantiu.

Delegacia Geral

Procurado, o delegado-geral Luccy Keiko enviou nota informando que a abordagem “aconteceu em um momento de bastante tensão” e que “supostos excessos devem ser apurados pela corregedoria”.

Confira abaixo a nota na íntegra:

A Polícia Civil esclarece que mantém relação estreita de respeito com a advocacia em geral. No caso em apreço, não obstante não estar se tratando de prerrogativas de advogados, quaisquer cidadãos devem ter seus direitos preservados de eventuais abusos. A abordagem questionada aconteceu em um momento de bastante tensão, quando eram presos criminosos perigosos e tentava-se salvaguardar vítimas sequestradas. Finalmente, esclarecemos que supostos excessos devem ser apurados pela corregedoria.

Sequestro e prisão

O gerente de uma agência bancária do Itaú e sua família foram vítimas de sequestro, na modalidade sapatinho, quando as vítimas ficam sob cárcere e são libertadas no dia seguinte. O crime se deu na noite de terça-feira (07) no bairro Gurupi e as vítimas acabaram sendo libertadas por volta de 15h desta quarta-feira (08), na BR 343, na saída de Teresina em direção ao município de Altos. A ação policial, executada pelo Grupo de Repressão ao Crime Organizado (GRECO) terminou com as prisões de seis acusados.

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