Economia e Negócios

BNDES prepara venda de R$ 6 bilhões em papéis da Vale

Banco de fomento irá se desfazer das debêntures participativas da mineradora; títulos foram utilizados na época da privatização da empresa, em 1997.

Por  Estadão Conteúdo
08/10/2020 08h57

Depois de vender R$ 6,9 bilhões em ações da Suzano, se despedindo de uma das maiores posições de sua carteira de renda variável, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) prepara a venda das debêntures participativas da Vale, títulos que foram utilizados na época da privatização da mineradora, em 1997, com um valor estimado de R$ 6 bilhões. O Bradesco BBI foi contratado como coordenador líder e a ideia é precificar esses papéis logo no início de 2021, disse ao Estadão/Broadcast o diretor de privatizações do banco de fomento, Leonardo Cabral. No entanto, a depender das condições de mercado, outra venda pode ocorrer antes, mas nada ainda já programado, segundo o executivo.

Para esse processo de venda, um pouco mais complexo, as debêntures serão listadas na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, como se fossem ações. Depois disso será realizada uma oferta pública, como uma tradicional oferta subsequente (follow on) de ações. Essas debêntures, segundo Cabral, foram uma forma pensada na época para a empresa privatizada, quando passasse a produzir em suas minas, pagassem royalties. Como divulgado pelo banco de fomento mês passado, a União deverá fazer uma venda conjunta dessas debêntures participativas, que não são conversíveis em ações.

Neste ano o BNDES já vendeu R$ 7,2 bilhões de ações da Vale em um leilão em Bolsa, chamado de block trade. Fora isso, o BNDES ainda possui 3,7% de ações da Vale, sendo que grande parte será liberada para venda em novembro, após o fim do acordo de acionistas da mineradora. Cabral frisa que as vendas da carteira de venda variável não serão feitas com pressa e apenas com condições de mercado apropriadas, sendo que o prazo para a meta estabelecida para a venda da carteira de renda variável é apenas no fim de 2022, disse. Ou seja: há tempo.

Mesmo com o prazo dilatado, o BNDES conseguiu colocar ritmo na redução de sua carteira de renda variável, vendendo em 12 meses cerca de R$ 42 bilhões, sendo R$ 16 bilhões apenas nos meses de pandemia. A maior venda foi das ações da Petrobras, em fevereiro, ocasião em que o banco de fomento colocou R$ 22 bilhões em seu caixa. "Nosso feedback (para a venda) sempre vai ser restrito em relação à avaliação da companhia pelos gestores de patrimônio e sempre temos essa preocupação. Não temos pressa em vender", destaca Cabral.

Foi assim com a venda da Suzano, conta. A decisão pelo desinvestimento foi tomada em agosto, momento em que o mercado estava bastante otimista, com a Bolsa em alta. E a operação - uma oferta subsequente - foi lançada. Na semana da precificação a volatilidade cresceu muito, mas a decisão foi de manter a oferta, dado que as conversas com os investidores estavam indo muito bem. No entanto, quando o mercado tentou puxar o preço da ação para baixo, o BNDES disse que não faria a venda abaixo de um limite. "Passamos o recado", disse Cabral. No fim, as ordens cresceram perto da precificação e a ação saiu em R$ 46, pouco desconto em relação ao dia anterior.

A participação da Suzano era antiga e o banco de fomento também era acionista da Fibria, que foi vendida à Suzano no ano passado, quando o banco de fomento se desfez de parte de sua fatia, por mais de R$ 8 bilhões. No roadshow da oferta da Suzano foram feitas reuniões com cerca de 150 investidores locais e estrangeiros. Para as reuniões, segundo Cabral, um grupo foi coordenador pelo presidente Walter Schalka e outro pelo CFO, Marcelo Bacci. "Foram atraídos muitos novos investidores para a Suzano", contou. O posicionamento ESG (ambiental, social e de governança) da Suzano, segundo o executivo do BNDES, ajudou bastante a chamar a atenção dos investidores. Novos investidores, que estavam fora da base, participaram da oferta, comenta.

Mesmo após as vendas ao longo do último ano, a carteira de renda variável do BNDES segue bastante robusta: cerca de R$ 75 bilhões. "Ainda temos participações muito grandes em grandes companhias, que iremos vender", comenta Cabral.

Ainda na lista para desinvestimento está, por exemplo, a Klabin, mas a venda da participação ocorrerá apenas após o fim do imbróglio em relação proposta que colocará fim ao pagamento de royalties por uso da marca pela companhia (nome Klabin, proveniente da família). A assembleia já está marcada para o dia 30 de outubro. Cabral lembrou que o BNDES, por ter 14% da Klabin, tem um papel fundamental em relação a esse assunto.

O banco de fomento ainda possui uma fatia relevante na Petrobras, com suas ações preferenciais e uma de suas participações mais polêmicas, na JBS.

Agora, além das vendas de ações da carteira, o BNDES enxerga maior tração em outras privatizações dentro do banco de fomento. Cabral destaca que no próximo mês o pontapé será dado com a privatização da Companhia Energética de Brasília (CEB).

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