Política

Bolsonaro reage a fala de Pujol e lembra que foi ele quem o nomeou

Comandante havia dito que o Exército ‘não tem partido’ e que não queria que a política entrasse nos quartéis

Por  Estadão Conteúdo
13/11/2020 20h14

O presidente Jair Bolsonaro reagiu às declarações do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, que afirmou ter atuado contra a contaminação política dos quartéis. “Não temos partido”, disse Pujol. Bolsonaro sentiu-se obrigado a se manifestar pelo Twitter, lembrando que as Forças Armadas “devem, por isso, se manter apartidárias, baseadas na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República”.

A primeira vez que Pujol se manifestara desde as tentativas do bolsonarismo d e envolver as Forças Armadas em suas disputas políticas aconteceu na quinta-feira, quando o comandante do Exército disse: “Nosso assunto é militar, preparo e emprego. As questões políticas? Não nos metemos em áreas que não nos dizem respeito. Não queremos fazer parte da política governamental ou do Congresso Nacional e muito menos queremos que a política entre em nossos quartéis.”

Pujol estava em um evento do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa, do qual participaram os ex-ministros da Defesa Raul Jungmann e do Gabinete de Segurança Institucional general Sérgio Etchegoyen. Nesta sexta-feira, voltou a se manifestar no seminário Defesa Nacional, na Escola Superior de Guerra. “Somos instituições de Estado, não somos instituição de governo, não temos partido. Nosso partido é o Brasil”, disse, usando expressão similar ao slogan “Meu partido é o Brasil”, adotado pela militância bolsonarista. “Independente de mudanças ou permanência de um determinado governo por um período longo, as Forças Armadas cuidam da Nação. São instituições permanentes, não mudamos a cada quatro anos a nossa maneira de pensar e como cumprir nossas missões.”

Depois de sua nova manifestação, Bolsonaro sentiu necessidade de lembrar que fora ele quem nomeara Pujol para o cargo em uma espécie de “chamado de unidade” às fileiras. Escreveu então: “A afirmação do General Edson Leal Pujol (escolhido por mim para Comandante do Exército), que ‘militares não querem fazer parte da política’, vem exatamente ao encontro do que penso sobre o papel das Forças Armadas no cenário nacional.”

Para três oficiais generais ouvidos pelo Estadão – dois generais e um brigadeiro – pela reportagem, a reação de Bolsonaro demonstra um mal-estar. Um deles creditou o problema às pessoas próximas do presidente que apagam incêndio com gasolina. Seriam integrantes do Planalto que estariam intrigando o presidente com Pujol, sugerindo que as falas do general – que só havia afirmado o óbvio – seriam um recado à Bolsonaro ou que Pujol estaria querendo aparecer. Exploram o notório ciúmes que Bolsonaro têm de ver seus auxiliares retratados na imprensa.

Um dia antes, Pujol havia dito ainda que o Exército brasileiro não tem recursos suficientes para garantir a soberania do País. E citou a defesa antiaérea brasileira como um dos pontos em que a capacidade do Exército tem de melhorar. Ele descartou existir alguma ameaça real ao Brasil. “O general Etchegoyen me perguntou se haveria algum país em nosso continente que seria uma ameaça ao Brasil. Eu digo. Hoje não, mas não sabemos daqui 3 ou 4 anos. Por isso, fazemos nosso planejamento estratégico.”

Pujol defendeu ainda a criação de uma Guarda Nacional, que assumiria funções, como o combate aos crimes ambientais na Amazônia, hoje repassadas ao Exército. E criticou a quantidade de vezes que o Exército é empregado para garantir a lei e da ordem ou para cumprir missões, como a distribuição de água no Nordeste – operação iniciada em 1999 –, fazendo da instituição um “posto Ipiranga”.

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