Política

Bolsonaro resgata protagonismo de Mourão após nove meses de ostracismo

Segundo interlocutores, colocação de vice em conselho da Amazônia e busca por Regina Duarte mostra aposta em nomes moderados dentro do seu grupo político.

Por  Estadão Conteúdo
27/01/2020 18h13

Neste começo de segundo ano de governo, o presidente Jair Bolsonaro apostou em nomes moderados do seu próprio grupo político para ocupar funções de integrantes da "ala ideológica". As crises do vídeo de inspiração nazista que derrubou o secretário de Cultura e do desmatamento da Amazônia, que repercutiu até em Davos, levaram Bolsonaro a convidar a atriz de novelas e militante de direita Regina Duarte para o posto de Roberto Alvim e a resgatar do ostracismo o vice-presidente. Hamilton Mourão recebeu ordem de acabar com as confusões na área ambiental.

Regina, se aceitar o cargo, entrará na lista de autoridades populares difíceis de serem demitidas. O ministro Sérgio Moro, da Justiça e da Segurança Pública, é um deles. Paulo Guedes, da Economia, outro. Nos bastidores do programa Roda Viva da semana passada, Moro disse ao Estado que a atriz seria mais popular que ele e Damares Alves, da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. O carisma da atriz fez as redes sociais, tanto de militantes governistas quanto da oposição, esquecerem a cena em que Roberto Alvim faz discurso semelhante a de Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, e estancou uma crise que começava a chamar atenção da imprensa internacional.

Já a escolha de Mourão para coordenar os recém-criados Conselho da Amazônia e Força Nacional Ambiental ocorreu sem estardalhaços. Na manhã de terça-feira, dia 21, Bolsonaro aproveitou um encontro de ministros no Palácio da Alvorada para tirar seu vice da “geladeira”. O general quatro estrelas estava afastado das conversas decisórias do governo. Em abril passado, ele enfrentou um linchamento virtual dos filhos do presidente e do guru deles, o escritor Olavo de Carvalho, que o acusavam de tentar protagonismo e jogar contra Bolsonaro. O presidente chegou a confidenciar a parlamentares que “casou” errado e preferia ter dividido chapa com o príncipe Philippe de Orleans e Bragança. Agora, numa ofensiva para reduzir os poderes de Moro, ele trouxe o vice para perto.

No encontro no Alvorada, Bolsonaro ouviu análises do impacto negativo da atuação do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para exportadores e anunciou a criação dos novos órgãos ambientais. Na sequência, abriu espaço para Mourão se posicionar. “Eu acho que essa é uma tarefa que posso assumir”, disse o vice. “Está decidido”, afirmou Bolsonaro, como num jogo acertado. O general quatro estrelas ganhou o comando de uma área que devasta a imagem do Brasil no exterior e algo que sempre pediu: uma função no governo.

Interlocutores do governo observam que Mourão construiu uma imagem de equilíbrio junto a setores diversos. Ao dar a missão para o vice, Bolsonaro tinha consciência que entregava também “holofotes”. O que antes era motivo de preocupação do clã Bolsonaro virou moeda de troca na disputa velada com Moro pelo controle do campo da direita. Também ressaltam que a Casa Civil, do ministro Onyx Lorenzoni, abandonou a tradição de coordenar ações interministeriais.

Foi o suficiente para a portaria do prédio da Vice-Presidência, um anexo do Planalto, voltar a viver clima de disputas de câmaras e microfones. Na última sexta-feira, 24, quem apareceu por lá foi justamente Sérgio Moro, chamado por Mourão, que, além de vice e coordenador ambiental acumula, até terça-feira, o posto de presidente interino. Em viagem à Índia, Bolsonaro tinha dado outra missão ao general: sinalizar ao ministro da Justiça um momento de trégua do “fogo amigo”.

Desafio amazônico

O problema da destruição da Amazônia passou de uma querela do governo com ambientalistas para ganhar destaque nos fóruns internacionais. Na semana passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi surpreendido com o debate ambiental em Davos. O presidente do Banco Central. Roberto Campos Neto, alertou o Planalto que o discurso ambiental extremista teria impacto direto no fluxo financeiro e nas relações comerciais do País.

Pesavam contra Ricardo Salles críticas da ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Ela alertava o Planalto que as ações de seu colega de governo prejudicavam os setores de grãos e carne, sempre atentos aos mercados de consumo da Europa e nos Estados Unidos. O remédio Salles de promover o esvaziamento de órgãos de fiscalização era amargo demais na avaliação da ex-líder da bancada ruralista na Câmara. Salles se desentendeu também com o Ministério da Defesa. No derramamento de óleo no litoral, no ano passado, ele atuou sem sintonia com o Comando da Marinha.

Na mesma semana em que buscou nomes de equilíbrio no governo, Bolsonaro deu sinais de ciclotimia, algo comum na postura de ocupantes da cadeira presidencial. Na manhã de quarta-feira, o presidente disse a jornalistas na portaria do Palácio da Alvorada que só daria entrevistas quando mandassem retirar o “processo” contra ele. Era uma referência a um manifesto da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). “Quando eu falo eu agrido vocês. Então, como sou uma pessoa da paz, não vou dar entrevista”, disse. Nos dois dias seguintes, ele falou por longo tempo com repórteres. Em outra situação de recuo, desta vez irritando sua militância, ele disse que estudava proposta de secretários estaduais de segurança pública de recriar o ministério da área, o que esvaziaria o poder de Sérgio Moro. Anteontem, Bolsonaro afirmou que a ideia estava “descartada”, mas no momento.

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