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Contradições repentinas de Trump deixam o mundo nervoso

Presidente dos Estados Unidos gosta de deixar inseguros parceiros, adversários e até mesmo seus aliado.

Por  Estadão Conteúdo
03/09/2019 07h10

Lembram quando o presidente Xi Jinping, da China, era o “inimigo”? Foi no dia 23 de agosto. Três dias mais tarde, segundo o presidente Donald Trump, Xi era “um grande líder” e um “homem brilhante”. Trump passou o final de semana da cúpula do G7 na França insistindo que não participaria do debate com os outros líderes mundiais, mas às vezes, parecia que estava debatendo consigo mesmo.

De um dia para o outro, e de uma hora para a outra, sua estratégia na guerra comercial com a China, o conflito econômico de consequências mais importantes do planeta, têm variado, deixando grande parte do mundo com torcicolo geopolítico. Se ele parecia informado a respeito do mundo todo, deixou claro no dia 26 de agosto, ao encerrar dias de atividade diplomática, que o mundo teria de se acostumar com isto.

Ele gosta de deixar inseguros parceiros negociadores, adversários, observadores e até mesmo seus aliados. Sua maneira de negociar às vezes envolve fatos que podem não ser fatos, declarações que podem não ter sido feitas e episódios que podem não ter ocorrido. E às vezes, desmente o que disse.

“Desculpem!” disse aos repórteres, de uma maneira que não parecia significar um pedido de desculpas. “É assim que eu negocio. Foi sempre ótimo para mim, ao longo de todos estes anos, e está sendo até melhor para o país”. No entanto, alguns veteranos políticos que em geral apoiam o presidente atualmente acham esta sua estratégia de duplicidade um tanto descabida e contraproducente.

“Talvez seja uma virtude jogar com as cartas coladas no seu peito e manter os adversários em suspense, mas o problema do modelo de Trump é que ele leva estas táticas ao extremo”, afirmou Michael Doran, um pesquisador do Instituto Hudson. “Você nunca sabe quando deve acreditar nele”.

Doran e outros atribuem isto à experiência de Trump no setor imobiliário, quando as negociações podiam ser feitas na base do blefe ou da intimidação sem grandes consequências além dos jogadores imediatos. “Quando você é o único operador negociando acordos imobiliários, o que importa no final é o contrato - a assinatura do acordo”, disse Doran.

“Na política e na diplomacia, há muita coisa importante que não se encontra no contrato formal”. A credibilidade, entre outras. Trump, que nos negócios às vezes personificava um porta-voz de si mesmo, costuma pôr as palavras nas boca dos outros líderes de forma a atender aos próprios interesses, e isto soa mais satisfatório para ele do que para os outros.

“A pergunta que mais me fizeram os colegas líderes mundiais, que acham que os EUA estão indo muito bem e são mais fortes do que nunca, é: ‘Senhor presidente, por que a mídia americana odeia tanto o seu país? Por que torce tanto para que ele fracasse?’” escreveu no Twitter. Nenhum líder falou isto publicamente, e seria impossível saber ao certo o que disse em particular.

Trump costuma falar tudo o que lhe vem à cabeça. A certa altura, ele afirmou que poderia anunciar a sua proposta de paz para o Oriente Médio antes das eleições de Israel, este mês, contrariando o plano da Casa Branca. Isto provocou imediatamente manchetes em Israel, embora parecesse mais uma frase absolutamente descartável. Ou talvez não fosse.

Nas últimas semanas ele se contradisse tantas vezes que é difícil dizer. Mudou de posição a respeito dos novos cortes dos impostos e aumentou as verificações dos antecedentes dos compradores de armas. Negou que uma viagem planejada à Dinamarca satisfaria a sua ambição de comprar a Groenlândia; depois, quando o primeiro-ministro disse ela que não estava à venda, cancelou a viagem.

Em parte, as várias contradições de Trump se devem ao fato de que ele é muito mais aberto e muito menos discreto com a mídia do que qualquer um dos seus antecessores. Somente no dia 26 de agosto, concordou em responder às perguntas dos repórteres em quatro oportunidades diferentes.

Mas o próprio Trump pareceu pensar talvez que tinha falado demais. “Não sei por que precisamos de uma coletiva à imprensa”, o ouviram queixar-se com Mick Mulvaney, seu chefe de gabinete em exercício. “Você cansa o pessoal depois de um pouco”, respondeu Mulvaney.

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