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Desiludido, um dos jornalistas mais famosos da China deixa a profissão

Dez anos após repercussão de um dos principais trabalhos investigativos da imprensa chinesa, Liu Wanyong deixa a profissão aos 48 anos.

Por  Estadão Conteúdo
10/07/2019 07h33 - atualizado 07h40

Tarde da noite, um alto funcionário da polícia levou Liu Wanyong, na época um promissor jornalista investigativo, até um local secreto, cheio de salas vazias, do Ministério de Segurança Pública da China. O policial tirou um dossiê de um armário trancado com arquivos sigilosos, e deu a Liu 30 minutos para gravar o seu conteúdo.

Os documentos continham a historia de um empresário inocente que havia sido preso por crimes cometidos por um político corrupto. Na China, em 2005, o vazamento de uma informação deste tipo era raro, e o relato de Liu sobre o membro do partido que usara o seu poder para mandar prender um inocente causou sensação.

Posteriormente, o empresário foi solto e o político, um secretário do Partido Comunista aposentado, foi para a cadeia. Por esta história, e por muitas outras, Liu ganhou o apelido de “mastim tibetano” por sua persistência no China Youth Daikly, jornal do Partido Comunista, apesar da fama de mudar as regras, algumas vezes.

Mais de dez anos mais tarde, Liu, então com 48, abandonou o jornalismo. A sua saída do jornal no qual trabalhara por 21 anos representa o fim do jornalismo investigativo na China, uma profissão destroçada pela pressão da ortodoxia do Partido Comunista sob o presidente Xi Jinping.

A saída de Liu significou que o jornalismo investigativo nunca mais seria o mesmo, declarou um artigo numa rede social mantido por repórteres chineses. Ele foi o pilar da sua profissão, dizia o artigo, acrescentando: “A figura mais importante do jornalismo investigativo desapareceu”.

“Para que a China se desenvolva de uma maneira sadia, normal, precisaremos de muitos veículos de informação que possam noticiar os fatos de maneira honesta”, afirmou Liu, que atualmente trabalha em uma empresa de administração de ativos. “Mas hoje as notícias não são mais notícias”, afirmou, e “o jornalismo não é mais jornalismo”.

Ele relutou a tomar sua decisão imposta, segundo afirma, pelo endurecimento da censura, quando pelo menos 100 matérias do Youth Daily, “particularmente interessantes”, foram destruídas nos dois últimos anos. Ele se cansou da costumeira resposta “terá de esperar” - o que, segundo ele, significava “nem sonhe em tratar deste assunto” - que recebia dos editores com os quais discutia os temas das suas matérias.

Às vezes, os jornalistas eram silenciados, proibidos de escrever durante meses como punição por redigirem artigos que infringiam as normas da censura. E ainda eram obrigados a apresentar relatórios em que confessavam os próprios erros. Em lugar das investigações, o partido queria “matérias positivas, inspiradoras”, que fazem com que o público se sinta bem enquanto a economia ia mal, ele lembrou.

No ano passado, a divulgação de artigos sobre o tumulto criado pelas fraudes financeiras que custaram as poupanças de milhões de pessoas foi proibida no interesse da “estabilidade social”. Os fatos que ocasionaram uma enorme explosão em uma fábrica de produtos químicos nunca foram explicados. “A resposta quanto aos responsáveis é uma das primeiras coisas que as pessoas querem saber em uma calamidade como esta”, afirmou Lu. “Mas se o público ler as nossas matérias, acaso irá descobrir? É claro que não”.

Liu nasceu em uma família pobre, em uma aldeia a menos de uma hora do centro de Pequim. Até o fim da adolescência, o mais novo de sete filhos de uma mãe analfabeta nunca havia ido até a capital. "Meus pais nem sabiam o que era uma notícia”, rememorou. Na época da Revolução Cultural, Liu era jovem demais quando as escolas foram fechadas, mas foi obrigado a aprender chinês sob um regime de terror imposto por um professor terrível.

Na faculdade, mostrou talento pelo jornalismo, escrevendo sobre o que acontecia no campus no estilo da Xinhua, a agência estatal de notícia, e passou em um teste que exigia que escrevesse em mandarim usual e no chinês clássico. “Ser jornalista exige essencialmente que você ame a sua profissão”, destacou. “ Ou você tem empatia pelas classes baixas ou não tem”. Ele não abandonou totalmente a profissão. Agora, aparece como convidado nas aulas de jornalismo, encorajando estudantes a persistirem mesmo no atual ambiente hostil.

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