Teresina - PI

Emoção e revolta marcam velório de criança morta por PM's em Teresina

"Todo mundo gostava dela. Tudo de bom minha filhinha era. Nove anos de idade. Eu perdi a minha netinha, foi a minha primeira netinha. Não tem mais ano novo pra mim", disse a avó Ocirene.

Bárbara Rodrigues
Teresina
26/12/2017 22h09 - atualizado 06/01/2018 09h42

Revolta e muita tristeza marcam o velório de Emilly Caetano da Costa, de 9 anos, que foi assassinada com dois tiros durante uma abordagem da Polícia Militar aos ocupantes de um veículo modelo Renault Clio, ocorrida na noite dessa segunda-feira (25), na Avenida João XXIII, zona leste de Teresina.

O velório está acontecendo na residência dos avós maternos de Emilly, no Parque Alvorada, na cidade de Timon. A criança estava com as duas irmãs, uma de 8 anos e outra de oito meses, além dos pais Evandro da Silva Costa, de 31 anos, cantor sertanejo, que foi atingido de raspão na cabeça, e Dayanne Caetano, de 26 anos, atingida de raspão no braço. Evandro ainda está internado no Hospital de Urgência de Teresina (HUT).

Muito emocionada, Ocirene Costa, mãe de Evandro e avó de Emilly, disse que não conseguiu desejar Feliz Natal para a neta. “Nesse momento estou muito arrasada, por ver a minha netinha nessa situação. Por mim o ano de 2017 acabou. Eu não tive nem o privilégio de desejar um Feliz Natal para a minha neta, porque eu não moro aqui, mas no interior de Caxias. Quando eu soube era 5h da manhã e cheguei minha netinha já estava morta”, disse.

  • Foto: Facebook/Dayanne EvandroEmíle foi morta durante abordagem policial Emilly foi morta durante abordagem policial

Ocirene disse não compreender a atuação dos policiais. “Eu estou esperando a justiça de Deus e em segundo lugar a dos homens. Esse homem diz que é PM, mas eu não o considero um policial. Sei que ele não treinou para ser policial e fazer uma barbaridade dessa, tirar a vida de uma criança de nove anos. Aliás, de uma família inteira. Acabou com os sonhos nossos. Era só uma criança. Estou muito arrasada, muito triste, não desejo isso pra avó nenhuma, pra família nenhuma, para ninguém. O que nós estamos passando é muito triste”, lamentou.

A avó disse que Emilly foi a sua primeira neta e que ela era muito feliz e carinhosa. “Ela era muito estudiosa, menina alegre, que tinha muita energia, carinhosa, muito esperta, muito amada. Todo mundo gostava dela. Tudo de bom minha filhinha era. Nove anos de idade. Eu perdi a minha netinha, foi a minha primeira netinha. Não tem mais ano novo pra mim. Muito triste”, disse ao GP1.

  • Foto: GP1Muita tristeza no localMuita tristeza no local

Amigos pedem justiça

Além de muita tristeza, há também muita revolta sobre como foi feita a abordagem dos policiais do 5º Batalhão da Polícia Militar de Teresina. O cantor Evandro e a família estavam retornando de uma visita à residência do empresário Reinaldo Lemos, quando Emilly foi alvejada. Reinaldo cuida da carreira de Evandro e relatou ao GP1 que recebeu o último abraço da criança.

“Eu passei internado uns 15 dias, ele ficou preocupado, por não ter me visitado durante a minha internação. Ele foi com família dele, a Dayanne e as nenéns me visitar. Por volta da 22h30 ele saiu da minha casa e foi comer. Ele queria comer um peixe e as meninas um açaí. Eu até disse que era para ele ir para casa deles, que estava tarde, mas ele disse que queria fazer o gosto das meninas. Inclusive a neném que chegou ao óbito, antes de sair, me deu um abraço e disse “tchau tio”. A última pessoa que ela abraçou foi eu”, lamentou.

  • Foto: GP1Empresário Reinaldo LemosEmpresário Reinaldo Lemos

Ele disse que só ficou sabendo o que aconteceu pela televisão e pediu por justiça. “Eu fiquei muito sentido, revoltado. Por volta das 10h da manhã quando eu liguei a televisão e vi esse cenário da neném que veio a óbito, eu não estava acreditando. Só soube de manhã pela TV. O mais revoltante é saber que essa fatalidade foi feita por policiais. Eu admiro muito o trabalho da polícia. Eu fiquei mais revoltado por saber que foi feito por um policial desqualificado, que deveria proteger a população. Estão fazendo tudo pelo contrário. Guarda o bandido e mata o cidadão. Eu acho que isso foi abuso de autoridade, pois não teve nenhuma fuga, não estava armado. O Evandro não anda armado. A única arma que tem no carro é a Bíblia de Deus”, disse.

Reinaldo criticou a forma como feita a abordagem dos policiais. “Evandro foi fazer uma curva e bateu o carro no meio fio. O Evandro aprendeu a dirigir há pouco tempo, tirou carteira faz pouco tempo. A polícia viu e não ligou a sirene de maneira alguma. Só depois de uns 50 metros. Quando a Dayanne viu que se tratava de polícia, aí pediu para parar. Quando o Evandro parou os policiais foram logo atirando. Deram uns sete tiros e chamando a esposa do Evandro de vagabunda. Eu sinceramente quando soube dessa história fiquei revoltado. O policial tratando o cidadão com vagabundo. Ela, uma senhora evangélica, que estava com uma criança no colo. O Evandro já estava baleado e desmaiado. Ela estava dando de mamar a criança. Uma fatalidade cruel. O homem que faz uma coisa dessa está muito distante de Deus, infelizmente nesse meio, tem homem que se faz de policial, mas sendo pior que bandido. Sinto muito ter policiais dessa natureza. Está todo mundo revoltado aqui com essa situação. Infelizmente os vagabundos de farda sujando o nome da polícia, infelizmente tem muito picareta no meio”, criticou.

  • Foto: GP1Casa onde a criança está sendo veladaCasa onde a criança está sendo velada