Brasil

Enxurrada de perguntas 'vai trocar Moro por Fraga?' fez Bolsonaro recuar

Presidente pediu ao presidente em exercício que chamasse Moro ao Planalto para acalmar os ânimos.

Por  Estadão Conteúdo
24/01/2020 12h18 - atualizado 17h50

O presidente Jair Bolsonaro decidiu recuar de desmembrar o ministério comandado por Sérgio Moro depois de receber uma enxurrada de críticas no celular, enquanto estava a caminho da Índia, onde faz visita oficial. "Vai trocar Moro por Fraga?", foi pergunta recorrente dos seus "amigos" no WhatsApp.

Alberto Fraga, ex-deputado federal, amigo e interlocutor do presidente questionou, em entrevista ao Estado, o trabalho de Moro à frente da área de segurança pública. Para um interlocutor direto do presidente ouvido pelo Estado, que prefere não se identificar, durante o voo, o presidente compreendeu a confusão que criou e decidiu retificar o que havia dito.

Em outro gesto, Bolsonaro pediu ao presidente em exercício que chamasse Moro ao Planalto para acalmar os ânimos. Moro esteve lá na manhã desta sexta-feira, 24, e saiu sem falar com a imprensa.

No entorno de Moro, a análise foi de que Bolsonaro quis dar uma "alfinetada" no ministro pela sua participação no programa Roda Vida, da TV Cultura, para ficar claro que é ele quem manda. O presidente não gostou de Moro ter dito que tem "carta branca" e ter desempenhado um papel considerado como de candidato. Para assessores de Bolsonaro, o ministro também não defendeu o presidente com "ênfase esperada" das "críticas" feitas ao presidente.

O recado ganhou contornos mais "oficiais", no entanto, quando o ministro da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, deu entrevista confirmando que o governo estudava a divisão do ministério, o que enfraqueceria Moro. O que era considerada só uma "alfinetada" passou a ser percebido como uma medida protocolar quando anunciada pelo responsável pela análise jurídica do governo.

Interlocutores de Moro analisam que a fala de Bolsonaro pode ser entendida de duas formas: pelo desempenho dele à frente da área de segurança pública ou apenas para o presidente marcar posição de que ele é quem manda.

A estratégia do presidente é a mesma: ele lança uma ideia, fica "incomunicável" por um tempo (neste caso, por causa da viagem para a Índia) para "ver para onde o vento vai". Diante das repercussões negativas dentro e fora do governo, Bolsonaro vem a público e tenta "minimizar os danos".

O que ainda desagrada aliados do presidente é que Bolsonaro recuou, assim que desembarcou na Índia, ao dizer que "em time que está ganhando não se mexe", mas deixou no ar a frase de que por enquanto o desmembramento tem "chance zero", mas que "na política, tudo muda".

Caso leve adiante a ideia de recriar o Ministério da Segurança Pública, não há dúvidas em torno de Moro de que ele deixará o governo. Essa é umas principais bandeiras do ministro, que fez seguidos anúncios de redução de índices de criminalidade no País.

Moro não foi convidado para a reunião com os secretário estaduais de segurança, que foram "surpreendidos" com o fato de o presidente ter "pinçado" o tema da recriação do Ministério da Segurança.

Antes da reunião, às 7 horas da manhã, ainda no Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente, ele recebeu o secretário de segurança do Distrito Federal, Anderson Torres, que foi conversar com ele especificamente sobre o tema. No encontro de secretários, também foi dito que os representantes dos estados de São Paulo e Minas Gerais se posicionaram contra a recriação do ministério.

Torres, que é da Polícia Federal, é muito ligado ao ministro Jorge Oliveira, que tem assento no Planalto. Já teve seu nome ventilado para ir para o comando da Polícia Federal no ano passado, quando se falava na troca de saída de Maurício Valeixo, em mais um processo de tentativa de enfraquecimento de Moro.

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