Piauí

Feminicídio: mulheres que foram vítimas de crime de ódio em 2017

A Lei Nº 13.104, que prevê o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio e como crime hediondo no Brasil, foi decretada em 2015.

THAIS GUIMARÃES
01/01/2018 13h22 - atualizado 02/01/2018 09h29

Feminicídio é o ato de assassinar mulheres pelo simples fato de serem mulheres e é considerado um crime de ódio. A ideia de feminicídio ou femicídio surgiu na década de 70 na Europa. A militante feminista Diana Russell utilizou o termo em 1976, durante um depoimento prestado em um tribunal de Bruxelas, na Bélgica.

A Lei Nº 13.104, que prevê o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio e como crime hediondo no Brasil, foi decretada em 2015. Desde então, o tema tem agendado mais discussões na sociedade, embora os crimes continuem ocorrendo.

De acordo com o Atlas da Violência 2017, que trouxe dados levantados entre 2005 e 2015, 47.943 mulheres foram assassinadas nesses 10 anos. No Piauí, nesse mesmo período, 471 mulheres foram mortas.

  • Foto: Divulgação/Atlas da ViolênciaTabela disponibilizada no Atlas da Violência 2016Tabela disponibilizada no Atlas da Violência 2016

Ainda segundo o Atlas da Violência, os números apontam que a maioria das mortes poderiam ter sido evitadas, visto que grande parte das mulheres, antes de serem assassinadas sofreram algum tipo de violência (física, sexual, psicológica, patrimonial ou moral), o que deveria servir como indicativo de risco de um desfecho fatal.

Em 2017, o Piauí registrou inúmeros casos de feminicídio. Os que mais repercutiram foram os assassinatos das jovens Iarla Lima e Camilla Abreu, em junho e outubro, respectivamente. Ambas foram mortas a tiros pelos então namorados.

Iarla Lima Barbosa, 25 anos, foi morta a tiros no dia 19 de junho pelo então namorado, o ex-oficial do Exército Brasileiro, José Ricardo da Silva Neto. Ele também atirou contra a irmã e uma amiga de Iarla, na saída de uma festa em um bar na zona leste de Teresina. No dia 22 de novembro foi realizada a audiência de instrução e julgamento de José Ricardo, presidida pelo juiz Antônio Noleto na 1ª Vara do Tribunal do Júri. Durante seu depoimento, o ex-oficial confirmou que atirou em Iarla, mas disse que os tiros que atingiram as outras duas pessoas que estavam no veículo foi acidental.

  • Foto: FacebookIarla LimaIarla Lima

Camilla Abreu, 22 anos, desapareceu no dia 26 de outubro, quando foi vista pela última vez em companhia do namorado, o capitão Allisson Wattson, da Polícia Militar do Piauí. A Polícia Civil confirmou a morte da jovem cinco dias depois, no dia 31. Allisson Wattson confessou que assassinou Camilla a tiros, indicando o local onde escondeu seu corpo.

  • Foto: Facebook/Camilla AbreuCamilla AbreuCamilla Abreu

A maior parte dos feminicídios registrados foi executada por companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Muitos deles, ao confessarem a autoria do crime, alegam ciúmes excessivos ou descontentamento com o fim do relacionamento.

Apesar de todos se tratarem de crimes hediondos, alguns se destacam pelos requintes de crueldade, como o caso de Maria Antônia da Silva, que foi assassinada com um tiro no dia 24 de março em Inhuma. O detalhe é que Maria Antônia morreu no lugar da filha, tentando protegê-la do ex-marido, Pedro da Silva Pereira, autor dos disparos.

Outro registro foi a morte da jovem Amanda Kelly, de 22 anos, no dia 08 de setembro em Parnaíba. Ela foi assassinada dentro da própria residência pelo marido, de nome não revelado, na frente dos dois filhos pequenos.

Grande parte das mortes foram executadas com armas de fogo ou armas brancas, contudo, algumas mulheres foram mortas de outras maneiras. O GP1 registrou dois assassinatos de mulheres a pedradas, ambos em novembro. O primeiro foi registrado no dia 05 em Oeiras, quando Maria Alzenir de Sousa foi morta dentro de casa, supostamente por um amigo de seu filho. No dia 19, em São Miguel do Tapuio, Samara Silva foi morta pelo então companheiro, identificado apenas como Julimar.

Em dezembro, uma jovem de 13 anos foi morta a facadas pelo companheiro, Antoniel dos Santos, de 23. O crime aconteceu no dia 24, em um bar do muncípio de Santa Rosa do Piauí.Segundo a polícia, o autor do crime não aceitava o fim do relacionamento.

O último caso de feminicídio deste ano foi registrado no dia 26 de dezembro. Uma mulher identificada como Misequia Silva de Carvalho, de 27 anos, foi morta com dois disparos de arma de fogo efetuados pelo marido identificado como Vianes Pereira Lustosa, de 37 anos. O crime aconteceu no município de Corrente e segundo a polícia, foi motivado por ciúmes.

Políticas de segurança

O Piauí foi destaque no ano de 2017 com o lançamento do aplicativo Salve Maria, que serve para denúncias de violência contra a mulher, fazendo um canal com autoridades policiais. A ferramenta conta com um botão do pânico, para casos de emergência.

  • Foto: DivulgaçãoSalve MariaSalve Maria

O aplicativo está disponível na loja virtual Play Store e já teve mais de três mil downloads.

Atos pelo fim da violência contra a mulher

Neste ano a sociedade piauiense demonstrou mais indignação em relação aos casos de violência contra a mulher. Além de o debate sobre o tema ter aumentado, a população foi às ruas diversas vezes, pedindo o fim desta violência.

  • Foto: Marcelo Cardoso/GP1Mulheres acedem velas em protesto Mulheres acendem velas em protesto

Um dos atos que mais marcaram aconteceu na Avenida Frei Serafim no dia 31 de outubro, data em que foi confirmada a morte de Camilla Abreu. A manifestação foi marcante porque as pessoas presentes relembraram inúmeros casos de feminicídio. Deitadas no chão de maneira simbólica, as mulheres mostraram revolta, ao tempo em que demonstraram força para lutar e resistir contra os crimes de ódio dos quais são vítimas diariamente.

  • Foto: Marcelo Cardoso/GP1Mulheres deitada no chão em protesto pela morte da Camilla Mulheres deitadas no chão em protesto pela morte da Camilla

Já no último dia do ano, um homem de identidade ainda não revelada foi preso após matar a própria esposa, Carla Eugênia, na frente da filha do casal. O crime ocorreu no residencial Tenho Fé, no bairro Angelim, localizado na zona sul de Teresina. Uma equipe da Companhia do Promorar conseguiu prender o suspeito em flagrante logo após o crime.