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Jornalista relembra aventuras da juventude de João Gilberto

Namoros com outras cantoras, noites viradas e histórias não contadas estão em lembranças de Roberto Muggiati.

Por  Estadão Conteúdo
06/07/2019 18h32

De João Gilberto uma coisa eu sei com certeza: que em 1958 nós gostávamos do mesmo homem. Êpa! Não é o que vocês estão pensando. Adorávamos o Guarani, o melhor baterista de uma perna só do mundo. (Era uma faixa muito competitiva, havia outros pernetas espertos, como o paulista Pirata, que perdeu a perna num acidente.) Guarani teve pólio na infância e ficou com uma perna troncha. Mas com a outra e as duas mãos fazia maravilhas. Eu o conhecia das loucas noitadas de Curitiba. João o escolheu a dedo como um dos quatro percussionistas na gravação histórica de Chega de saudade(1958), o hino oficial da bossa nova.

Eu sei também, com certeza, que esbarrei com o João no camarim da Sarah Vaughan, em sua noite de estreia no Brasil. Nem chegamos perto da diva porque o Poetinha lhe movia cerco total. O show da Sarah aconteceu no Fred’s, uma boate em cima de um posto de gasolina na Avenida Atlântica, na esquina onde construíram depois o Hotel Méridien. Aquela primeira segunda-feira de agosto de 1959 foi o último-baile-da-Ilha-Fiscal do Rio como Capital da República. Todo mundo estava lá. Presidia a mesa principal, o homem mais poderoso da época, o jornalista Samuel Wainer, com sua ofuscante Danuza. João Gilberto, terno escuro e gravata, ficou calado a noite inteira de mãos dadas com sua noivinha, Astrud Evangelina. (Antes, namorou duas cantoras geniais da bossa: Sylvinha Telles e Mariza Gata Mansa. Depois, casou com outra, Miúcha, e se tornaram pais da cantora Bebel Gilberto.)

Só fui encontrar João Gilberto de novo muito, muito tempo depois. E também muito longe do nosso Rio de Janeiro. Eu estava, entre meia dúzia de gatos pingados, espionando o cantor no escuro da plateia do Cassino de Montreux enquanto João fazia sua passagem de som para a Noite Brasileira com Tom Jobim. Na verdade, contra Tom Jobim — foi um verdadeiro duelo no Curral OK, uma briga de navalha entre cegos. Ali, naquela tarde de julho de 1985, na Suíça, descobri o quão safo era o baiano de Juazeiro. João testou uma bateria de microfones e escolheu logo um modelo que, apesar do visual retrô, anulava totalmente a interferência do ar condicionado no sistema de som. Coisa de gênio, de cientista louco. João estava com todas as balas na agulha para enfrentar Tom: Montreux decidiria qual era o melhor dos dois. Jobim – com sua banda familiar (a mulher, o filho, os Morelenbaum, os Caymmi) – chegou atrasado de um festival na Espanha, mas João não deu colher de chá. Era ele, e ninguém mais, quem iria encerrar a grande noite. Jamais “abriria” o espetáculo, como mero coadjuvante, para Tom Jobim. Graças a sua persistência, conquistou o “horário nobre”, embora, após prolongadas e inúteis parlamentações, isso significasse subir ao palco já bem depois da meia-noite. Apesar do adiantado da hora, João, apenas com banquinho e violão, brindou a plateia com quase duas horas de música encantada: naquela madrugada, pudemos ver a silhueta do Corcovado logo ali, às margens plácidas do lago Léman.

Eu sei também que o João não é mole. Três anos depois ele aprontou uma terrível com minha amiga Lúcia Sweet — a Lúcia que, de tão doce, casou com o músico místico Tomás Lima, o Homem de Bem. Tive a sorte de presenciar o maior não-evento (hoje se chamaria factoide) da carreira gilbertiana – e da história do showbiz brasileiro. Sexta-feira, 1º de julho de 1988, a crème de la crème do Rio desfila na plateia do Municipal à espera de João Gilberto. Já se sabe, com certeza, que ele não vai aparecer. Mesmo assim, durante alguns momentos, arde intensa a expectativa em meio à fogueira das vaidades. A produtora Hummingbird (Colibri), de Lúcia, montou no palco um cenário que era uma gentil mistura da féerie tropical dos musicais da Metro com um altar Hare Krishna, cheio de incensos e palmeirinhas. Às 21 horas, uma voz espectral anuncia, pelos altofalantes do Theatro, que serão concedidos trinta minutos de tolerância para João Gilberto subir ao palco e iniciar o espetáculo. Apesar do contrato assinado, João, ao longo da semana, através dos advogados, já dava sinais de que fugiria da raia, alegando uma forte gripe, com atestado médico e tudo. Não deu outra: ele não compareceu.

Tempos depois, nosso cantor, encalacrado com a indenização que foi obrigado a pagar a Lúcia Sweet, teve de engolir alguns sapos: levantou dinheiro fazendo um comercial da Brahma e, patrocinado pela mesma cerveja, concordou em dar um megaconcerto naquele mesmo Municipal do Rio em dupla com seu desafeto, Tom Jobim. Pode ter sido ruim para o ego do João, mas para a plateia foi fabuloso.

Ah, ia esquecendo! Numa conversa recente, o Sérgio Ricardo me falou da época em que ele e o João eram carne e unha. João, sem eira nem beira no Rio, explorava a hospitalidade libanesa dos Lutfi (Imaginem só café da manhã daquela casa...) Depois que fechavam os inferninhos, João e Sérgio trocavam longos papos filosóficos na praia até o amanhecer. Um dia, sem mais aquela, João botou o Sérgio contra a parede: “Cara, o seu problema é que você é alienado, faz musiquinhas bobocas de namoricos e ignora os grandes problemas sociais do mundo em que vivemos.” Chamado à razão, Sérgio virou um músico “politicamente engajado” e saiu quebrando violões pelos festivais, enquanto o bom João continuava na dele, fazendo seus sambinhas sem compromisso e tornando-se o verdadeiro “mestre zen do bim-bom.” Esse foi o título que dei ao perfil do João no meu livro Improvisando soluções (Best Seller, 2008). Fechei o texto com esta frase: “Convidem o João para cantar algumas páginas do catálogo telefônico – vou ouvir na primeira fila.” Achei que estava sendo muito original, mas li depois o que Miles Davis escreveu certa vez sobre João: “Gilberto seria capaz de fazer um som maravilhoso simplesmente lendo um jornal.”

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