Economia e Negócios

Refugiados ganham mais vagas no mercado formal do Brasil neste ano

Neste ano, foram 14,7 mil contratações, ante 7,6 mil do ano passado, segundo o Relatório de conjuntura – Tendências da imigração de refúgio do Brasil.

Por  Estadão Conteúdo
07/12/2019 18h30

O número de refugiados em território brasileiro que conseguiram entrar no mercado formal de trabalho aumentou no segundo quadrimestre de 2019, em comparação ao mesmo período de 2018. Neste ano, foram 14,7 mil contratações, ante 7,6 mil do ano passado, segundo o Relatório de conjuntura – Tendências da imigração de refúgio do Brasil, recém-lançado pela OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais).

Descontadas as demissões ocorridas, ainda assim 2019 se sobressai: o saldo é de 6,6 mil contratados neste ano, ante um saldo de 3,2 mil de 2018. O maior crescimento de admissões se deu entre venezuelanos (21,3%), cubanos (14,1%) e haitianos (8,5%). O movimento acompanha o crescimento de emissões da carteira de trabalho para solicitantes em situação de refúgio – 35,1 mil entre maio e agosto -, que por sua vez reflete a expectativa graças ao aquecimento do mercado nos últimos meses.

Em paralelo, o setor privado vem se abrindo a este filão de profissionais. As vagas são majoritariamente em serviços, comércio e produção de bens industriais, totalizando 97,6% dos postos oferecidos, enquanto ocupações mais qualificadas, como alta gerência e profissionais de ciências ou artes, sofreram queda.

“Temos feito ações de sensibilização do setor privado para a inserção destes imigrantes”, explica Carla Lorenzi, da OIM (Organização Internacional para as Migrações). As ações buscam apresentar o passo a passo para a contratação de refugiados, desmistificando pontos que ainda causam insegurança para empresários, como questões trabalhistas. “Ainda há muito preconceito por falta de conhecimento frente à situação de vulnerabilidade”, conclui Carla.

Algumas companhias já aderiram à ideia e vêm colhendo frutos. Além de se alinharem mais à bandeira da diversidade e da empatia social, tendência bem vista pelo mercado, percebem que o retorno do investimento pode ser valioso.

“São pessoas que acabam trazendo uma nova cultura e competências diferentes para a empresa, o que estimula a equipe como um todo a buscar aprendizados”, atesta Chieko Aoki, presidente da rede Blue Tree Hotels, que comemorou no início do mês a formatura da primeira turma do programa “Viver sem fronteiras, construindo juntos o bem-receber”.

O projeto contou com o apoio de instituições como Grupo Mulheres do Brasil, Agência da ONU para Refugiados (Acnur), Programa de Apoio para Recolocação de Refugiados (PARR), Instituto Venezuela e Estou Refugiado. Cinco venezuelanas e um congolês participaram da capacitação e passaram a compor o quadro de colaboradores da rede.

A barreira do idioma

Motivada pela crise na Venezuela, Johana Garcia, de 33 anos, desembarcou no Brasil em agosto de 2018. Em Caracas, trabalhava como funcionária pública no Ministério da Educação. Aqui, o emprego de arrumadeira no Blue Tree veio depois de muitos currículos entregues. “O idioma certamente foi o principal obstáculo”, diz ela.

Para Chieko, a oportunidade é uma questão humanitária. “Meus pais também foram imigrantes e chegaram no Brasil sem falar uma palavra de português. Todos merecem uma oportunidade.”

Apesar de a língua representar a principal barreira, o diferencial do idioma nativo pode ser fator determinante na contratação. “O conhecimento de idiomas estrangeiros é um diferencial quando temos uma vaga em locais com grande circulação de turistas”, observa Clarice Martins Costa, diretora de Gente e Desenvolvimento da Lojas Renner.

Os refugiados contratados pela varejista vêm do programa Empoderando Refugiadas, criado em 2016 pelo Instituto Lojas Renner em parceria com ONU Mulheres, Acnur e Pacto Global. Mesmo com o foco feminino, homens que demonstrem interesse são incluídos nas turmas.

Uma das recomendações é a compreensão intermediária do português para acompanhar melhor as aulas, mas o domínio da língua não é obrigatório. Finalizado o curso, é possível entrar no processo seletivo para tentar uma vaga nas lojas. A turma mais recente tinha 20 participantes. Todas foram contratadas.

Idioma estrangeiro levado em conta

O jornalista cubano Oandis Martínez, de 29 anos, chegou a trabalhar em restaurantes e no comércio antes de se tornar vendedor interno na Herospark, plataforma de empreendedorismo digital. De acordo com Caroline Brischi, gerente de RH da empresa, além do comprometimento e da resiliência dos colaboradores estrangeiros, o espanhol fluente foi o requisito levado em conta. A equipe conta com três refugiados cubanos.

“Estamos ampliando a operação para a América Latina e percebemos que nossos clientes sentiam mais confiança e empatia quando falavam com pessoas nativas de países latino-americanos”, afirma. Para Martínez, a oportunidade fortaleceu a decisão de permanecer no País. “Minha visão de futuro sempre foi no Brasil”, diz. “Inclusive, se for aprovado meu protocolo de solicitação de refúgio, só voltaria a Cuba para passar férias e rever a família. Meu lugar é aqui.”

Se vontade e determinação não faltam, os refugiados precisam de condições básicas para dar os primeiros passos em direção à integração. “Muitas vezes eles não têm dinheiro para se deslocar na cidade”, analisa Larissa Resende, docente dos cursos de hotelaria, turismo e eventos da Universidade Anhembi Morumbi, que ministra oficinas gratuitas de auxiliar de cozinha, panificação e elaboração de currículo para refugiados.

O projeto contou com a parceria do grupo Mulheres do Brasil, que levantou recursos para financiar o transporte. As parcerias, aliás, são fundamentais em todos os níveis da iniciativa. “Trouxemos o Grupo Maní, que contratou três profissionais na última edição, e o Antonietta Cucina, que já promoveu uma participante a hostess e está pagando um curso de português para ela”, conta a responsável pelo projeto.