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Sony fechará fábrica no Brasil e encerrará venda de TVs e câmeras

Empresa vai encerrar fabricação local após 48 anos; divisões de videogame, música, soluções profissionais e audiovisual, no entanto, permanecerão funcionando por aqui.

Por  Estadão Conteúdo
15/09/2020 13h12 - atualizado 16h18

Presente há quase cinco décadas no Brasil, a fabricante de eletrônicos Sony vai fechar sua fábrica na Zona Franca de Manaus e deixará de vender TVs, câmeras e produtos de áudio no País a partir de março de 2021 – período em que se encerra o ano fiscal de 2020 da companhia japonesa. A informação consta em um comunicado enviado pela fabricante japonesa a parceiros, incluindo varejistas, o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) e o governo estadual local – o Estadão teve acesso ao documento.

No comunicado, a empresa afirma que a decisão ocorre "considerando o ambiente recente de mercado e a tendência esperada para os negócios". A companhia ainda reafirma que outras de suas quatro divisões (videogames, soluções profissionais, música e audiovisual, que inclui cinema e TV) continuarão a atuar no Brasil.

Apesar do fechamento da fábrica, a Sony também afirma que manterá operações locais para "oferecer todo suporte ao consumidor para os produtos sob a sua responsabilidade comercial de acordo com as leis aplicáveis e sua política de garantia de produtos". As vendas de PlayStation, que já não contavam com fabricação local, devem continuar por meio de distribuidoras. Segundo apurou o Estadão com fontes do mercado, uma saída possível para os próximos passos da empresa seria fechar um contrato com uma distribuidora, mas nenhuma parceria foi firmada até o momento.

No final da manhã desta terça, 15, a Sony confirmou o encerramento das operações e as outras informações contidas na nota enviada aos parceiros. Além disso, acrescentou: "A Sony está tomando todas as medidas necessárias e está muito comprometida como empresa em empenhar seus esforços para garantir todos os direitos, o melhor tratamento e cuidados especiais aos seus colaboradores".

Tanto no comunicado oficial quanto no comunicado enviado pela companhia ao Cieam e ao governo do Estado do Amazonas não há detalhes sobre como ficarão os trabalhadores da indústria. Nas contas do mercado, a empresa tem entre 300 e 400 empregados na Zona Franca de Manaus. Wilson Périco, presidente do Cieam, informa que tem reunião marcada com a empresa na próxima quarta-feira, 16, e que a companhia já havia solicitado o encontro na semana passada com a direção do Cieam, mas sem especificar qual seria o tema.

Valdemir Santana, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Manaus e da Central Única dos Trabalhadores do Amazonas (CUT-AM), diz que já se reuniu com a direção da Sony e que tem novo encontro marcado para tentar atenuar as perdas para os trabalhadores da fábrica. Ele pretende negociar uma proposta que ofereça a manutenção do plano de saúde para os empregados que serão demitidos por um tempo maior e uma indenização proporcionalmente maior para os que têm mais tempo na empresa.

O dirigente sindical argumenta que não existe uma política industrial do governo que fomente o emprego, no momento em que as autoridades sinalizam que poderão reduzir tarifas e abrir o setor para as importações. “Em 2010, a Zona Franca chegou a ter 140 mil empregos e hoje não chega 85 mil.”

Competição

Presidente do Cieam, Périco aponta três motivos que explicam a decisão da Sony de sair da linha de áudio e vídeo, repetindo um movimento que foi feito pela Philips cinco anos atrás.

O primeiro fator seria a forte concorrência de outros fabricantes asiáticos, com a perda de participação de mercado que já vinha ocorrendo nos últimos anos. “Coreanos e chineses não são fáceis. Samsung e LG nadam de braçada e há outras chinesas produzindo bastante também.” A escala de produção dessas empresas, faz com que os custos de produção sejam muito agressivos e isso dificulta a concorrência, observa Périco.

Somado à escala, ele, ressalta a rapidez da evolução tecnológica do setor. Empresas que estão ligadas a centro tecnológicos da Coreia e da China têm tido mais facilidade para acompanhar esse mercado com maior velocidade, observa o presidente do Cieam.

Um varejista consultado pela reportagem afirmou que os produtos da marca estavam "praticamente fora do mercado" em relação preço.

Outro fator apontado por Périco para a saída da Sony é a grande incerteza no ambiente de negócios que há no País. “Temos, a todo instante, a equipe econômica falando que quer baixar imposto de importação e abrir o mercado.” Em conversas que o executivo teve com o governo, ele alertou que há no setor eletroeletrônico grandes multinacionais produzindo localmente. Isso significa, segundo o presidente do Cieam, que o corte de imposto não é de todo modo ruim para essas empresas. “O que eles mais querem é sair da insegurança jurídica, da instabilidade política e passar atender ao mercado brasileiro produzindo fora, gerando emprego fora.”

Novo recuo

Esse não é o primeiro movimento de recuo importante da gigante japonesa no Brasil. Em abril do ano passado, a marca abandonou o mercado de smartphones. Na época, Kenichiro Hibi, presidente da Sony Brasil, afirmou ao Estado: “Paramos o nosso negócio de celular no Brasil por um tempo como parte de nossa estratégia. Aqui no País existem marcas muito grandes, a maior parte de venda de aparelhos é de categoria econômica, e nosso foco é em linhas premium”. Após abandonar os celulares, o foco da companhia seria nas TVs e produtos de áudio.

Apesar de ter resultados positivos com a venda de games em todo o mundo, a Sony alertou em maio investidores que previa uma queda de 30% no lucro global devido ao coronavírus, puxada pela queda na demanda de TVs e sensores de câmeras.

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